sexta-feira, 13 de agosto de 2010

VOU-ME PIRAR - 4.b

IV- CONFIDÊNCIAS (2)

É engraçado isso que contas; é assim como sonhares acordada revivendo momentos passados da tua infância onde, tal como eu, misturas realidade e imaginação.

O chegares atrasada com os cabelos em desalinho;

O não saberes onde estavas numa fuga à realidade que te preocupa;

A não-aceitação de sujidade reflectida nessa espécie de WC ferroviária;

E por isso a fuga no primeiro comboio que conseguiste apanhar cujo destino não era, seguramente, o mais importante;

Eu sempre gostei de andar de comboio (e ainda gosto) sem razão especial a não ser o prazer de viajar, e gostava de o fazer com a cabeça fora da janela, olhando em frente apanhando o vento na cara, aproveitando a deslocação e a resistência do ar para fazer da minha mão uma espécie de avião que subia e baixava vezes sem conta.

Chegava também a imaginar-me montado num cavalo, galopando ao lado do comboio ou conduzindo um carro em alta velocidade quando a linha corria lado a lado, junto a alguma estrada.

Coisas de crianças, influenciadas pelos filme de aventuras e que os adultos raramente entendem.

Mas nunca achei que as árvores e as casas se moviam!

Talvez porque nunca tive um bom professor

(a continuar)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

VOU-ME PIRAR - 4

CONFIDÊNCIAS (1)
Acordei sobressaltada sem saber onde estava...
Quem chegava à estação estranhava ver-me ali, olhavam de lado e abanando a cabeça seguiam o seu caminho...
Levantei-me envergonhada e dirigi-me à casa de banho...casa de banho era um nome demasiado pomposo para designar aquele espaço minúsculo...uma sanita e um pequeno lavatório que tinha por cima um pedaço do que um dia fora um espelho eram todo o mobiliário...depois de lavar a cara e dar um jeito no cabelo, senti-me um pouco melhor...
Saí, peguei nas minhas coisas e entrei no primeiro comboio que chegou à estação...não importava para onde ia nem o tempo que a viagem ia demorar...não tinha rumo certo e tempo era o que não me faltava...tempo eu tinha de sobra...
Sentei-me perto de uma janela e fui vendo a paisagem que à medida que o comboio avançava ia ficando para trás...
Sorria ao lembrar o que me diziam quando eu era uma criança...que não era o comboio que andava, mas sim as árvores e as casas que se moviam...
E eu cheguei a acreditar...
(a continuar)

domingo, 1 de agosto de 2010

VOU-ME PIRAR - 3

O ACORDAR
PÔINGGG…, PÔINGGG…! Sobressaltado sem saber onde estava, levantei-me nem sei como e, em pânico, corri para a porta para fugir nem eu sabia do quê; abri a porta e… era o WC de sala de espera! Recordei-me da noite anterior e percebi que foi o comboio expresso que me tinha acordado à sua passagem. Já mais calmo (e depois de aliviar a bexiga) voltei para a mochila onde me esperavam as fatias de presunto, o pão e a cerveja. Não era o pequeno-almoço ideal mas era o melhor que tinha. Foi então que a vi, sentada a um dos cantos da sala olhando-me entre espantada e curiosa e com um semblante sorridente provocado pelo meu acordar “explosivo”.
-Olá, bom dia…, pensei mais do que falei, mas deve ter-me ouvido já que respondeu:
- Bom dia.
Fixei-a esforçando-me por coordenar as ideias (ou seja, acordar de facto), e querendo saber o que dizer-lhe mais; mas nada…

-
Ficamos sempre um bocadinho estranhos quando acabamos de acordar, ainda mais quando se acorda na sala de espera de uma estação de comboios. Dormiste aqui?
-Sim!

-
Cansaço?
-Pois ontem iniciei uma caminhada e perto da meia-noite fiquei por aqui para passar a noite.

-
Melhor aqui que dormir ao relento, mas pela tua cara não me parece que fosse uma noite muito confortável, ainda mais quando somos acordados pelo barulho estridente de um comboio.
-Pois foi; se não fosse o expresso ainda estava a dormir. Que horas serão?

-
São 6 horas.
-Ainda é tão cedo…

-
Cedo demais, a quem o dizes...
-Também passaste a noite aqui?

-
Não credo! Cheguei há pouco mais que 10 minutos
-Ah…! Esperas alguém?

-
Espero- ehehe- o comboio.
-Vais viajar? Estás de férias?

-
Vou viajar, mas não de férias, vou trabalhar.
-Claro, claro; é importante trabalhar, evidentemente! Eu também trabalhava ainda que uma amiga minha diga que não faço nada…

-
E será que a tua amiga não está certa? Não me parece que trabalhes muito...
-Não! É brincadeira dela para me “atazanar” o juízo.

-
Achamos sempre que trabalhamos mais que os outros, por vezes até achamos que somos os únicos que trabalham...
-Trabalhava em transportes internacionais mas desisti. E tu?

-
Tenho um negócio meu, pequenino, mas meu.
-Tens um negócio? Ah sim? E então, vai correndo bem?

-
Já é um hábito falar-se da crise e dizer que isto está tudo mal, mas a verdade é que está mesmo muito mau...
-Pois, com a crise as pessoas vão prescindindo de alguns extras…

-
Sim, mas não é só isso, os encargos são cada vez mais...muitos impostos, pouco dinheiro, poucos clientes...o que eu vendo não são extras, são bens de primeira necessidade, mas mesmo assim as pessoas compram o minímo...
-Não, não quero dizer isso; mas a verdade é que os €uros não chegam para tudo.

-
E não chegam mesmo, mas o problema é que a maioria das pessoas vivem acima das suas possibilidades, tiram mais depressa à mesa que aos luxos...
-Pronto! Ok!, Ok! Desculpa… (bolas…, cuidado com ela!!!,)

-
Não tens que pedir desculpa, é a realidade...
-Vais apanhar este comboio que está a chegar?

-
Vou.
-Ah sim, apanhas sempre este, todos os dias…

-
Normalmente sim, a menos que me atrase...E tu, vais neste ou vais dormir mais um bocadinho?
-Não, também vou! Sempre conversamos mais um pouco se não te importas.

E lá fomos. Ela toda perfumada e maquilhada, sapatos de salto alto, daqueles às tiras mais a mala a condizer, e eu de mochila e cobertor (mais os buracos) às costas, e também um problemazinho: não tinha bilhete!

-Como te chamas?, perguntei enquanto entrávamos na terceira carruagem.

(a continuar)